Retrospectiva 2015

Um beijo… Um brinde. Duas taças de Shampagne e uma dose de esperança. Recomeço. Vontade de fazer diferente. Dias calmos, calmos em demasia. Inércia, letargia, medo. Reencontro, ância por mais. Boas notícias, incredulidade, finalmente comemoração. Espera quase muito longa e noites quase sem fim. Quase desespero. Planos, roteiros imaginados,, expectativa. Imprevistos e previstos. Mudança, afinal.
Medo do que parece irreversível, e do que não parece, mas mesmo assim não tem jeito. E, principalmente, medo de aceitar. Velha intensidade, novas consequências. Pessoas partindo, pessoas chegando mas não permanecendo. Pessoas presentes, mesmo nos piores momentos. Despedidas reais e metafóricas, adaptação. Felicidade. Mãos dadas e carinho no cabelo. Abraço literalmente apertado e característico. Descobertas e redescobertas, autoconhecimento e pequenos grandes ajustes. Novas percepções e novas experiências. Primeiras vezes. Intimidade, satisfação. Aprendizado, vontade de fazer mais. Confusão interna e pedaços pelo caminho. Tempestades e conversas que lavam a alma.
Coisas simples, muito valor. Caldo de cana, vinho. Infinitas novidades. Livros, sempre livros. Novos estilos, reinvenção. Reconstrução. Mais uma vez encontros não concretizados, reencontros inesperados e tristes desencontros. Planos de lado, imaginação. Abandonos não intencionais. Viagens e retornos, de variados tipos. Procrastinação. Autocrítica, culpa justificada e irracional, anseio de ser melhor e melhor e melhor. Perfeccionismo inconveniente. Rancor, infelizmente. Ciúme louco, louco coração. Amor que preenche. Que transforma. Que faz amar mais. Sonhos, mais sonhos. Saudade das linhas e dos parágrafos. Saudade das palavras. Perdas, como sempre há. E tristezas, madrugadas de lágrimas.
Letras e histórias, começos. Conheci mais, me apaixonei mais. Vivi mais. Mais de tudo o que eu não tinha tido. Astrologia, novos vícios e novas fases. Saldo positivo. Amizade leal, diferentes sucessos. Momentos inesquecíveis. Crescimento, muito crescimento. Alguns objetivos alcançados, outros transformados e outros se tornaram dispensáveis. Energia boa, bons ventos, embora expectativas ao mínimo. Muito fica para trás, sim. Porque muito está por vir. Muito a realizar. Muito de tudo que for bom. Muito, porque eu quero tudo.

Eu, modo de usar

Pode vir sem medo, prometo. Mas tenha calma, em alguns dias mais do que em outros. Venha sempre, me encanta o que nasce aos poucos. Não se assuste, eu posso ser arisca, às vezes. Nada que um pouco de carinho não resolva. Aliás, me dê muito carinho. O tempo todo, se possível. Aquele carinho sutil, que quase passa despercebido, e diz, simplesmente, “Estou aqui”. Não grite, tente ser delicado… Sou meio frágil. Mas quando chegar a hora, aja. E me obrigue a ter um pouco mais de iniciativa, se for preciso. Sou distraída e dispersa, também. Caso seja necessário, me sacuda de volta ao mundo real. Ao mesmo tempo, nas situações em que me tornar muito racional e pessimista, sonhe um pouco comigo, também. Me faça sair algumas vezes, mesmo que eu me recuse. Mande em mim. Se for por uma boa causa, eu deixo. Me provoque, me irrite de um jeito bom, e depois ria. Mas não reclame se eu quiser me vingar. Perdoe meu mau humor, mas cobre uma compensação depois. Criatividade é sempre bom.

Deixe eu me cobrir no verão e tomar café frio no inverno. Mas não perca a piada, nem o controle. Quer dizer, perca o controle sim, faz parte. E perca a linha, quando estiver nos meus braços. Ache as coisas na minha bagunça, por favor. Releve a desorganização, principalmente a interna. Entenda que em alguns casos não quero conversar e não é nada com você. Mas se eu pedir para sair, fique mesmo assim, nem que em silêncio. Não precisa saber ler todos os meus sinais, só ajudar a construir os nossos. Eu gosto de significados. De datas, de presentes… E de surpresas. Me dê batons, mas só se for para borrá-los em seguida. E muitas vezes ainda. Seja menino, homem. Seja um pouco meu, muito seu e o que você quiser. Mas seja, sobretudo, constante.

Tenha preferências, manias e vontades peculiares, mas nada tão definido assim que não possa mudar. Defenda o que ama com fervor, eu gosto disso. E gosto de abraços apertados, de mãos dadas, de carícia no cabelo. Gosto de fazer coisas que você gosta, então me diga todas elas. Não, todas não. Melhor ainda, algumas posso descobrir muito bem sozinha. Beba, cante, desafine e me derreta. Declare-se nos detalhes… Mas fale também, afinal, eu sou uma romântica mal disfarçada. Se revele… Quero ver você nervoso, triste, precisando de algo que só eu tenho, quem sabe. Não brigue comigo pelas noites em claro, embora isso seja um tanto quanto negociável.

Tenha amigos e segredos bons. Tenha ciúmes, por que não? Mas aguente os meus, também. Goste de praia, de agitação e de festas. De brigadeiro de colher, de filminho em um dia gelado. De beijo roubado e aconchego com cafuné. Implique por causa de futebol ou qualquer outra coisa assim irrelevante, nada como uma discussãozinha saudável. Não fume, nem faça ciúmes. Não fuja de mim. Me ganhe, me enlouqueça do melhor jeito que há. Me abrace, enlace, entrelace e não solte mais. E se tudo isso for demais para você… Apenas tente me amar!

Nota: Assim como Esse aqui, esse post também foi inspirado por uma crônica da maravilhosa Martha Medeiros, de quem sou muito fã. Aprecie aqui

Colcha de retalhos

Eu sou o livro que li devido a indicações entusiasmadas, o que li com outra pessoa, o gênero desbravado após muita insistência.  A história preferida de uma pessoa próxima, o autor orgulhosamente apresentado por ela e todas as conversas que se seguiram sobre personagens e pontos de vistas. Sou o filme que assistimos naquela tarde de férias, o da madrugada e aquele que me fez chorar. Os artigos que compartilhamos, até mesmo os pouco úteis. Mas também as notícias, os textos melosos. As vezes em que tivemos conversas longamente reflexivas e os comentários que me fizeram enxergar além. Eu sou o gênero musical desconhecido, até aquele alguém chegar para me viciar nele. Sou a banda preferida daquele outro alguém, que depois de certo tempo passou a ser a minha também. As músicas que tentei interpretar, falando sério ou não, com tantas pessoas diferentes. Sou a canção que aquela pessoa cantava para mim, a que eu cantei para ela  e a que cantávamos juntas. A que ela me ensinou a gostar, me ajudou a odiar e me mandou em um determinado momento. Sou as músicas que até hoje canto, por causa de alguém ou para alguém. As nostálgicas melodias que estavam tocando naquele dia marcante, de propósito ou não.

Eu sou o jeito de falar das pessoas importantes para mim. As alterações leves na forma de se expressar, as manias pequenas que logo se tornam compartilhadas. Quase um sotaque inconsciente que às vezes surge nas sutilezas da convivência. Nossa linguagem secreta e as piadas particulares. Os vícios léxicos, as gírias que nós mesmos inventamos, os apelidos que me deram. Sou os assuntos que interessam as pessoas próximas, suas paixões, seu entusiasmo e sua força. Sou a confiança dos que me contaram segredos, a organização dos que tentaram me fazer ser menos bagunçada, o carinho dos que incentivam. A constância dos que aguentam a minha própria inconstância. Sou o contato de todos os dias, as coisas que passam despercebidas. O que aprendo, mesmo quando a intenção do outro não é ensinar. Sou as mudanças boas, o amadurecimento que contou com ajuda. E mais, tão mais.

A verdade é que eu sou uma colcha de retalhos, retalhos de outras vidas. Uma mixórdia desorganizada de lembranças, trechos de conversas, experiências. Um quadro rupestre  de emoções loucas e saudade. Mas, acima de qualquer coisa, eu sou um mosaico composto por outras pessoas. Por tudo o que elas me deram, me tiraram ou me ajudaram a construir. Seja em um papo sobre leituras, seja cantando a música que eu nem conhecia mas se tornou especial assim mesmo. Seja quando passamos por algo difícil ou só trocamos amenidades diariamente. Eu sou eu mesma, sim. Mas também sou os outros. Porque sempre que eu leio um livro, ouço um cantor por indicação de alguém ou qualquer outra coisa parecida, um pedaço dessa pessoa fica em mim. Querendo ou não, eu percebendo ou não. E, o principal, por mais que a pessoa se vá, aquela ínfima parte sua que ela inconscientemente ofereceu, ainda me pertence. E continuará pertencendo, mesmo que ela nunca volte. Assim, de certa forma é como se ela jamais houvesse ido, afinal. Eu sou ausências, partidas e desencontros. O amor dos que estão ao meu lado e tudo o que eu mesma ofereço a cada dia.  Eu sou o “Para Sempre” de todos os que mudaram a minha vida, independente do que tenha acontecido ou deixado de acontecer depois. E agora, você que está lendo essas palavras, é, também, um pouco de mim, nem que seja apenas através desse texto.

Apenas lembre-se

Ei, você. Você que partiu sem olhar para trás, que a vida afastou, que se foi e não há como voltar. Você que ficou em alguma das tantas esquinas, que foi vítima das circunstâncias ou protagonista da própria vontade. Você que não me vê há anos, há meses, você que nunca mais me verá. Ou que me vê todos os dias, mas ambos sabemos que algo se quebrou. Você, um estranho que talvez me conheça um pouco bem. Eu não peço muito. Eu só peço que se lembre. Lembre-se de como é o som da minha voz, das piadas bobas que eu fazia. De uma das minhas manias ou de que eu gostava de determinada banda. Lembre-se do meu sorriso e de como você me provocava por certas coisas. Lembre-se de que eu tinha um animal de estimação, ou que tivemos, entre nós, um apelido, quem sabe. De algum plano maluco que fizemos ou dos possíveis segredos sussurrados. Lembre-se das minhas obcessões passageiras ou do meu entusiasmo com as coisas pequenas, como datas, por exemplo.

Não precisa se lembrar nem da metade, muito menos ficar pensando sobre quaisquer recordações fugazes. Apenas lembre, às vezes. de passagem, mesmo que somente durante breves instantes de pensamentos aleatórios. Lembre-se daquela nossa conversa marcante, bem séria. Ou do meu raro desabafo, ou ainda de quando eu ouvia você e tentava ajudar. Lembre-se, talvez, de algo que eu tenha dito, ou de um momento em particular que eu nunca saberei que foi significativo para você. Lembre-se de quando cantamos, de quando choramos, de quando contamos histórias longas e loucas. Lembre-se de como eu mexia no cabelo ou das nossas bagunças e papos no telefone que duravam horas. Lembre-se daquela vez, ou daquela outra. Da nossa caminhada, do jogo que jogávamos ou das madrugadas frias e tardes ensolaradas. Lembre-se de nada específico, mas lembre-se.

Não precisa me procurar para conversar, concertar, nem para contar que pensou em mim e sentiu nostalgia. O que eu peço é simples. Só, lembre-se. Por favor, lembre-se. De qualquer detalhe, de qualquer minúcia insignificante, ou do sentimento, da cumplicidade, qualquer coisa que tivemos. Recorde como fomos íntimos e uma das tantas coisas que fizemos. Não me esqueça, nesses milhares de voltas que o universo dá. Me mantenha no fundo de algum baú trancado, mas me mantenha com você, do jeito que for. Lembre-se. Lembre-se de mim. Lembre-se de nós. Porque eu lembro de você. Sempre. De vocês, de todos vocês. Que chegaram, me transformaram, e por mais que tenham partido, permanecem aqui.

Quanto tempo durou o seu Para Sempre?

Para sempre foram todas as manhãs em que fui acordada pelo gato dormindo em cima de mim. Todas as tardes brincando com as cadelas, os banhos do outro cachorro, o carinho e o rabo desse batendo nas minhas pernas. As noites com amigos, mesmo que eles morem longe, em diferentes estados. As loucuras com os mesmos amigos, com outros, com os que nem amigos eram, afinal. A caminhada e os segredos, a trilha. Os três dias, os seis, a semana e a oficina. Para sempre foram as duas horas da palestra inesquecível, as três da aula marcante, as cinco ao lado daquela pessoa que dispensa comentários. Os instantes que consagraram as melhores ou piores percepções. A verdade revelada e as certezas irrenunciáveis. O segundo em que o coração perdeu uma batida e a razão perdeu a batalha definitiva.

Para sempre foram os abraços deliciosamente apertados, os beijos de tirar o fôlego, os carinhos no cabelo, as mãos dadas, entrelaçadas nos momentos mais comuns. E para sempre foram os momentos comuns, também. Os momentos de paz, a tranquilidade de não desejar estar em nenhum outro lugar no mundo todo. As horas que pareceram minutos, todos os mínimos detalhes de dias compartilhados e noites agradavelmente longas em ótima companhia. As piadas ridiculamente sem graça e rir até a barriga doer, mesmo durante a aula. Principalmente durante a aula. Para sempre foi a vergonha dos grandes equívocos, a alegria das boas notícias e o sentimento inominável que cerca cada reencontro. O apoio, o incentivo, tudo o que fica quando as datas se apagam. Embora algumas sejam lembradas, também. São as refeições em família, as histórias antes de dormir e os passeios de bicicleta a toda velocidade.

Um filme, um livro, até mesmo uma música. E principalmente as sensações. Para sempre é aquele alguém. Os pequenos grandes detalhes, que retornam nas horas mais aleatórias. Uma pessoa, duas, três… E mais. É aquela voz dando bom dia, as brigas fingidas com as melhores amigas, os papos profundos da madrugada e as reflexões matinais. Para sempre são as amizades, embora algumas acabem muito cedo. São os planos, mesmo os irrealizáveis. São os sonhos, que permanecem onde realmente importa. São as partes que deixamos no caminho, as que desejamos esquecer mas é impossível, as que nos marcam como nós mesmos, a cada fase da vida que se vai. Para sempre somos nós e nós somos o sempre de alguém. É o que valeu a pena, o que se leva, no final. Um instante ou uma vida. Foram e são. São muitas outras coisas e serão muitas mais ainda. O meu Para sempre durou um segundo, cinco minutos, um dia e três anos. Duas semanas, um mês e meio, quinze dias. Meia hora e meio dia. Porque o verdadeiro sempre não é o que não tem fim, mas o que na memória e no coração nunca acaba. E então, quanto tempo durou o seu para sempre?

A Arte De Per (doar)

Muito se fala de perdão. De como é um sentimento nobre, necessário, a coisa certa a ser feita. E é tudo isso e além, ainda. É doce, alivia. Isso é inegável. Mas o que quase ninguém fala é o quanto perdoar custa. Como continua doendo depois, diminui, mas não apaga, nem mesmo um pouco. O que se sentiu, o quanto se sentiu. A intensidade, os dias escuros e frios. Ninguém fala como perdoar exige algo que você nem sabe que tem, nem sabe se consegue ter. De como é preciso força. E há um preço a ser pago. Um preço que pode ser alto demais.

Não é obliterar o que foi feito ou dito, às vezes não é nem superar. Perdoar é constante. São todos os dias. Nas pequenas e grandes coisas, por mais clichê que isso seja. Todos os instantes que você escolhe não julgar mais, não se ressentir tanto, não pensar. Afastar, enterrar pouco a pouco, embora saiba que nunca esquecerá. Perdoar são todas as vezes que você decide que passado é passado, que você não usa o que já foi em discussões atuais, que resiste a vontade de trazer a tona o que não importa mais. Perdoar é acreditar no melhor, mesmo já tendo visto o pior. E sabendo que ainda pode estar lá, a espreita. É aceitar as desculpas, mesmo que nunca se aceite as ações. É passar por cima, na certeza de que rancor é um peso desnecessário a se carregar em um mundo que já sobrecarrega tanto. Porque no final, apesar de tudo, vale a pena. Mil vezes, vale a pena. Seja pelo motivo que for.

O perdão é uma escolha. É se permitir, encarar de frente. Independente do que se faça depois, perdoar nos torna livres, da forma mais linda e pura. Traz uma daquelas sensações que as palavras jamais chegarão sequer perto de conseguir descrever. Se você irá continuar vendo a pessoa, se dará outra chance a ela, se irá trancá-la em uma gaveta para nunca mais abrir, nada disso importa. Perdoar não tem definição, não tem protocolo. É sentir, deixar tudo sair, evaporar com o tempo, seguindo a correnteza da vida. Sem amarras. Abre novas portas e fecha outras para sempre. Deixa leve, os dias mais simples, as complicações menos complicadas. É o princípio do esperado desfecho, ou o primeiro passo do novo começo. Perdoar é nada mais do que isso. Doar. Sem esperar nada em troca, sem julgar o mérito de ninguém. Doar paz. Ao outro e principalmente a si mesmo. Doar um pedaço do seu coração, a parte mais sincera e vulnerável. O pedaço mais precioso que alguém pode desejar ter. Doar, simplesmente, amor.

Eu lembro

Para ela, os dois se conheceram em uma quarta-feira chuvosa. Foi em uma sexta e com muito sol, ele reafirma, convicto. De tarde, não, a noite. Quanto ao lugar, eles quase concordam, quase. Eu que disse oi, ela vai logo dizendo, para deixar bem claro. Ele, sorrindo, argumenta que não foi culpa sua se ela não ouviu quando, ele, sim, cumprimentou por primeiro. E foi olá, nada de oi. Ele ainda diz que ela era muito inacessível, enquanto ela o acusa de ser pouco perceptivo com os sinais. Era uma festa, que nada, foi no shopping. Trocaram olhares, mês de julho, reitera ela. Setembro, ele fala, pela milésima vez. Amigos em comum, um ponto de concordância.

Aniversário de namoro. Dia 13, não, 14. Mas era madrugada já. Não importa. se eu não dormi ainda não era outro dia. Comemoram nas duas datas, como uma trégua merecida. Ela diz que o primeiro presente que deu a ele foi um livro, ele diz que foi perfume. Ela ganhou como primeiro presente um estojo de maquiagem, ou um par de brincos, dependendo para qual dos dois a pergunta é dirigida. Foi uma briga. Não, não foi. E aquela viagem para a praia foi a primeira. Claro que não, teve aquela trilha ecológica, é longe também. Ele diz que ela é muito ciumenta. Ela se defende, fazendo comparações. Ele não cede, ela continua, aponta o dedo mas acaba rindo. E ele também, finalmente. Ele diz que a mãe dela é muito brava, ela reclama que o pai dele a odeia. Não há consenso sobre as datas, mais uma vez.

Divergem sobre as pequenas promessas não cumpridas, os jogos bobos, o que vão comer no jantar e o que comeram no primeiro jantar um na casa do outro, é claro. “Eu lembro”, eles dizem, em todas as vezes. Depois discutem, fingem ficar de mal, se beijam e fazem as pases. Nnguém ganha. Ninguém nunca ganhará. E é por saber que nenhum desses detalhes importa de verdade é que eles continuam discordando. Afinal, no que mais importa eles não apenas concordam, como sabem, têm certeza, a máxima certeza: É amor. E vai continuar sendo. Na quarta, na sexta, em julho e em setembro, dia 13, 14 ou 15. E disso, sim, eles lembram. E, independente de qualquer coisa, nunca vão esquecer.

Brincando com Legião Urbana #2 – Perfeição

Vamos celebrar nossa tristeza, vamos celebrar nossa maldade. A ferrugem nos sorrisos, agricultores famintos, desaparecendo debaixo dos arquivos, o ódio e a inveja, o horror por entre abismos e florestas. Vamos celebrar o preconceito, nosso pequeno universo. Esses dias tão estranhos… Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel. e ESSA JUSTIÇA DESAFINADA, tão humana e tão errada. Ficamos suspensos, perdidos no espaço. Nos deram espelhos, e vimos um mundo doente… Quando tudo é traição, quando querem transformar estupidez em recompensa. Quando o que temos é um catálogo de erros… Nada é fácil, nada é certo. O senhor da guerra não gosta de crianças… É uma dor que dói no peito.

Hoje não dá, hoje não dá… Toda hipocrisia e toda afetação, todo roubo, toda a indiferença. O descaso o que condena, o que se foi e o que não existe mais. Vamos celebrar a fome. E a ignorância que é vizinha da maldade. Que belíssimas cenas de destruição… Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar. Descompasso, desperdício… E esses dias tão desleais. Pra que servem os anjos? O que fizemos de nossas próprias vidas? Só nos sobrou do amor, a falta que ficou… E o resto é imperfeito.

Não há mentiras nem verdades aqui, só há as coisas como são. Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber. Tanto fez e tanto faz… Roubar pra vencer. Mas a vida deixa marcas, do cansaço e da solidão… E queremos fugir mas ficamos sempre sem saber. Não temos com quem chorar, nem pra onde ir. O que temos é o que nos resta e estamos querendo demais, mas tudo bem, tudo bem…
Tudo está perdido, mas existem possibilidades. A umanidade é desumana, mas ainda temos chance. Queremos nossa vez, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. não é pedir de mais… De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então. Sempre em frente… E tudo deve passar. Temos paz, temos tempo. Temos todo o tempo do mundo. Somos nosso próprio tempo e o tempo é tudo o que somos.

De hoje em diante todo dia vai ser o dia mais importantte. Não se esqueça, temos sorte. E agora é aqui. Liberdade e respeito, chega de opressão. Chega de maldade e ilusão. Existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem, Que cáia o inimigo então. E nosso futuro recomeça… Um por todos e todos por um. E nossa história não estará assim pelo avesso, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar, vamos viver… Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás, apenas começamos. O mundo começa agora… E venha que o que vem é perfeição.

A Colecionadora

Algumas pessoas colecionam bolsas, sapatos, até mesmo xícaras. Ela não. Isso é tão raso, tão superficial que não cabe em seu mundo. Ela também não preserva sua coleção peculiar para admirar ou exibir, sequer por gostar muito dos objetos, embora este último se aproxime da verdade, de certa forma. Ela coleciona instantes. Para reviver, sentir de novo e de novo, como um vício sem fim. Abraços apertados, beijos doces, conversas importantes. Ela guarda os dias de sol, os toques leves, que fizeram a diferença justamente pela sutileza e ternura. Guarda começos, carinhos, guarda saudade. Ela coleciona pequenos “sempres” e valiosas eternidades.

A coleção permanece com ela em todos os momentos, protegida, bem cuidada. Sua vitrine está toda desenhada com palavras, aquelas que nunca serão esquecidas. Letras traçadas com tinta permanente, partes soltas, capítulos esquecidos de sua própria história e trechos significativos das de outros. Grafitada com rabiscos aleatórios, dos dias em que nada fazia sentido, como uma pintura rupestre de sentimentos expostos. Está, também, enfeitada com pequenos presentes, souvenirs do ontem. Esses sim tangíveis, para que ela possa, às vezes, sentir nas pontas dos dedos toda a realidade e imensidão do abstrato que a cerca, do intocável, apenas alcançado quase em outra dimensão. Saber que não foi um sonho, que foi, e é, ainda, real. Pequenos pedaços de passado, que a ajudam a ficar ancorada no agora.
Também há perfumes, tantos e tantos perfumes. Perfume de nostalgia, de outras épocas, de pessoas, do vento. Cheiro de grama, terra molhada e amor. Cheiro dos cabelos, do pescoço e das roupas de um outro alguém. Cheiro de livros e das emoções vividas com eles. Há texturas. Textura da pele, de papel, de madeira e couro. Dos pêlos dos diversos amigos de quatro patas. Arrepios… E toques, infinitos toques. Das mãos, das pernas, dos rostos. Toques das almas, como com os grandes amigos. Ela também coleciona sons. Batidas de um coração, suspiros, o trinar dos pássaros. Músicas, diretamente relacionadas com acontecimentos. Vozes, muitas vozes. De outros tempos, de outros mundos. E o gosto do doce que ninguém mais viu, do bolo da festa de aniversário, de outros lábios que não os seus. Gosto de chuva e do que aconteceu enquanto chovia lá fora. Gosto de lágrimas, de mudança, de expectativas. Gosto de café bem forte na tentativa de sanar a agitação interna em meio às longas madrugadas insones.
Ela coleciona memórias, mas não apenas memórias. Coleciona vida. Partes do que foi importante, de quem foi, de quem ainda é importante. Uma paleta de cores e sensações. Um refúgio para as horas difíceis e um cobertor para as noites gélidas. É lá, em sua coleção particular, que ela se esconde e se encontra, sempre que necessário. Ou apenas quando sente vontade, mesmo. É lá que ela é livre, um pé no presente, outro no passado. O coração longe, a mente no futuro. Ela se perde nos retalhos de si mesma, sem saber que, de todas as coisas, é isso que a salva.

As palavras permanecem

A explicação esperada, o pedido de desculpas, a longa discussão tarde da noite. O conselho, que não foi mais do que mera preocupação. A conversa casual antes que tudo acontecesse, os assuntos aleatórios do depois. O perdão concedido, as acusações atiradas aos gritos e as declarações sussurradas, finalmente. As perguntas, as respostas e os porquês desnecessários mas doces. O trágico adeus, o “olá” das possibilidades. O “eu te amo” disfarçado, o “eu me preocupo com você”, nas entrelinhas. Começos, recomeços. E no fim da noite, no fim de tudo, até mesmo no fim da vida, ficam os abraços. Os beijos, os gestos. Ficam as sensações, as mágoas e o apoio recebido, ou não. Ficam os cheiros, os toques. Mas sobretudo, ficam as palavras. Imortais, marcas indeléveis, firmes como rochas, em meio a um vendaval insano de mudanças e reviravoltas. Sobrevivendo ao tempo e a todo o resto.

As palavras de esperança, que nem pareciam capazes de nada, mas acabaram por ser mais do que qualquer um poderia ter imaginado. As de incentivo daquela pessoa que nem imagina o quanto fez a diferença. As críticas duras, mas necessárias. Os simples elogios que aquecem nas noites geladas. As confissões que levam consigo um pedaço irrecuperável de algumas relações. As palavras simples, que por serem daquele alguém, se tornam tudo menos simples. As promessas, as garantias. As que feriram e continuarão ferindo, indefinidamente. As declarações que ecoam e ecoam, sem que nada possa ser feito para que isso pare. E nem sempre o desejo é que pare, afinal. As mentiras e a dor das palavras que foram a descoberta. Os trechos de conversas aleatórias, que se transformam em tesouros de normalidade quando as tais conversas já não são mais possíveis. As palavras de amor e de amizade, que fazem qualquer outra coisa valer a pena. As sinceras, que fazem brilhar até mesmo os dias cinzas. Os divisores de águas, para sempre partes da história. Recordações, pedaços de vida em forma de letras, tons e vozes.

As palavras são mais. Muito mais. São imprescindíveis, insubstituíveis. Nada equivale a simplesmente falar, ou escrever, que seja. Colocar para fora. Tornar concreto, real. E nenhuma outra coisa satisfaz mais do que ouvir, preto no branco, o que os gestos já disseram antes. Uma confirmação, quase uma admissão. No entanto, as palavras nunca são o suficiente. E ao mesmo tempo, são tudo, e além. São menos do que queremos admitir, mais do que queremos que os outros percebam. As palavras libertam. Destroem. Resgatam. E depois que tudo se vai, as palavras são tudo o que resta. O inferno e a cura. E na maioria das vezes, não há distinção.