Cidade de papel – John Green

645. Cidades de PapelTítulo: Cidade de papel
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Páginas: 308

Sinopse:
Quentin Jacobsen tem uma paixão platônica pela magnífica vizinha e colega de escola Margo Roth Spiegelman. Até que em um cinco de maio que poderia ter sido outro dia qualquer, ela invade sua vida pela janela de seu quarto, com a cara pintada e vestida de ninja, convocando-o a fazer parte de um engenhoso plano de vingança. E ele, é claro, aceita. Assim que a noite de aventuras acaba e um novo dia se inicia, Q vai para a escola e então descobre que o paradeiro da sempre enigmática Margo é agora um mistério. No entanto, ele logo encontra pistas e começa a segui-las. Impelido em direção a um caminho tortuoso, quanto mais Q se aproxima de Margo, mais se distancia da imagem da garota que ele achava que conhecia.

Resenha:
Tudo começa quando aos oito anos de idade, Margo e Quentin encontram um corpo no parque enquanto brincavam. Na ocasião a garota usa uma metáfora afim de explicar o acontecido: os fios do homem se partiram. Essa metáfora passa a ser parte indispensável e permanente da história como um todo. No momento da leitura, esse começo parece bastante vago e até entediante, incompreensível; porém, mais a frente faz total sentido. Passaram-se 8 anos e Q e Margo vivem em mundos completamente opostos: ela no grupo dos populares e ele no dos deslocados. Mas seus caminhos voltam a se cruzar quando ela o convida para uma aventura que mudará a vida dos dois para sempre. Ele sente-se novamente conectado com sua paixão platônica e acredita que depois de fazerem coisas como invadir parques aquáticos juntos, tudo será diferente. Apesar de não entender o porquê de Margo querê-lo por perto depois de tanto tempo, ele mantém suas esperanças. Q é um nerd, um personagem com a cara de John Green, divertido, desajeitado e mais complexo do que parece; seus amigos Ben e Radar, trazem mais traços já conhecidos do autor, personagens que fogem a normalidade, bem humorados, únicos e sensacionais a sua maneira; os três formam um grupo agradável de se acompanhar, com jogos próprios e sua parcela de simbolismo e complexidade, geralmente as histórias de Green trazem a amizade de maneira muito forte e marcante, nessa não foi diferente.
Após a noite de aventuras, Margo desaparece e Quentin sente a necessidade, ou responsabilidade de encontrá-la, seja aonde for. A partir daí, ele e seus amigos lançam-se a uma tenaz busca, desvendando pistas, interpretando poemas e tentando acima de tudo, descobrir quem era Margo Roth Speigelman de verdade. Cada membro do grupo via Margo a sua maneira, sua própria Margo, mas nenhum deles sequer sabia as coisas que mais importavam. Essa é uma das reflexões que ficam com o livro: podemos conhecer alguém quando essa pessoa está conosco, quando ela está com outros, mas podemos jamais conhecê-la de verdade, e sequer saber disso. Apenas as pessoas as quais são importantes o suficiente nos conhecem em diversas faces, e mesmo assim nunca totalmente, nesse processo surgem vários de nós, de acordo não com o que somos mas tanto com o que aparentamos quanto com a visão de cada pessoa a respeito disso.
Através de várias pistas, metáforas e suposições, Quentin tenta colocar-se no lugar de Margo, entrar em seu mundo e descobre que poucas coisas são mais difíceis do que tentar entender outra pessoa sem ao menos conhecê-la, descobre que aquela garota que ele ama não passa de aparências, uma verdadeira garota de papel, vivendo uma vida de papel, em uma cidade de papel; uma vida de aparências, vazia, sem sentido, em uma cidade onde poucos realmente se importam uns com os outros, estando preocupados em manter o equilíbrio de suas próprias vidas de papel, e ela se cansou de tudo isso. Quando você entende o título e as metáforas do autor, enfim consegue entender Margo Roth Speigelman em sua totalidade.
Será que somos capazes de ver além uns dos outros? ou somos também pessoas de papel cuidando de nossas perfeitas vidas de papel? Será que todas essas coisas com papel não podem ser uma metáfora para a comodidade humana? a comodidade em fingir, em fragilizar-se e entregar-se a tudo o que vier sem nem mesmo pestanejar, mudar sempre exige muito, afinal. Além do que, deixar de ser uma pessoa de papel consome muito de nós, a cada dia que passa.
O final é uma surpresa inenarrável, e quando se olha para trás, a partir dos fatos finais, muitas coisas mudam e outras se encaixam. Mais um livro incrível de um autor incrível; despretensioso, aparentemente simples, cidadee de papel é capaz de tocar muito além de uma mísera história adolescente. A característica que mais me prende no John Green é essa profundidade, essa capacidade de tornar uma historinha com enredo estranho, até bobo a primeira vista, algo completamente cheio de reflexões, surpresas, mistérios e metáforas escondidas.

“E agora a vida se tornou o futuro. Todos os momentos da vida são vividos no futuro.”

“Olhe para todas aquelas ruas sem saída, aquelas ruas que dão a volta em si mesmas, todas aquelas casas construídas para virem abaixo. Todas aquelas
pessoas de papel vivendo suas vidas em casas de papel, queimando o futuro para se manterem aquecidas. Todas as crianças de papel bebendo a cerveja que algum vagabundo comprou para elas na loja de papel da esquina. Todos idiotizados com a obsessão por possuir coisas. Todas as coisas finas e frágeis como papel. E todas as pessoas também.”

“Fazer as coisas nunca é tão bom quanto imaginá-las.”

“É muito difícil para qualquer um mostrar a nós como somos de fato, e é muito difícil para nós mostrarmos aos outros o que sentimos.”

“no final das contas, ouvir faz com que se exponha muito mais do que as pessoas a quem se estava tentando escutar.”

“É muito difícil ir embora — até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo.”

“ir embora é uma sensação boa e pura apenas quando você abandona uma coisa importante, algo que tinha um significado.”

“É tão fácil se esquecer de como o mundo é cheio de pessoas, lotado, e cada uma delas é imaginável e sistematicamente mal interpretada.”

“Que coisa mais traiçoeira é acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa.”

“Mas imaginar ser outra pessoa, ou que o mundo pode ser diferente, é a única saída.”

“Eu entendo agora que não posso ser quem ela é, e que ela não pode ser quem eu sou.”

” A imaginação não é perfeita. Não dá para mergulhar por inteiro dentro de outra pessoa.”

“se os fios dentro dele tivessem se arrebentado. Mas existem milhares de maneiras de se pensar a situação: talvez os fios se arrebentem, talvez o navio naufrague ou talvez nós sejamos relva, nossas raízes tão interdependentes que ninguém estará morto enquanto houver alguém vivo.”

“Mas não somos brotos diferentes da mesma planta. Eu não
consigo ser você. Você não consegue ser eu. Por mais que você imagine o outro, nunca o imaginará com perfeição, não é?
“Talvez seja mais como o que você falou antes, rachaduras em todos nós.
Como se cada um tivesse começado como um navio inteiramente à prova
d’água. Mas as coisas vão acontecendo… as pessoas se vão, ou deixam de nos
amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos… e nós perdemos,
erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em determinados
lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. Quando começa a
chover dentro do Osprey, ele nunca vai voltar a ser o que era. Mas ainda há um tempo entre o momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento
em que nós nos rompemos por completo. E é nesse intervalo que conseguimos
enxergar uns aos outros, porque vemos além de nós mesmos, através de nossas
rachaduras, e vemos dentro dos outros através das rachaduras deles. Quando foi que nos olhamos cara a cara? Não até que você tivesse visto através das minhas rachaduras, e eu, das suas. Antes disso, estávamos apenas observando a ideia que fazíamos um do outro, tipo olhando para sua persiana sem nunca enxergar o quarto lá dentro. Mas, uma vez que o navio se racha, a luz consegue entrar. E a luz consegue sair.”

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