O meu maior medo

Eu tenho medo do fracasso, da solidão, da morte. Do fim de algumas coisas e do ressurgimento de outras. Medos. Muitos e diversos medos. Mas o maior deles, aquele que me faz pensar além de alguns minutos, talvez o mais profundo para alguém como eu, passa longe de tudo isso. Tenho medo da rotina. Essa palavra pequena, até mesmo gostosa de se dizer, às vezes. Rotina. Pode sugerir conforto, uma espécie de objetivo, quem sabe. Até mesmo segurança. Mas não é a essa que me refiro. Rotina, para mim, é comodismo. E é isso que me assombra. A rotina que apaga, que destrói pouco a pouco, ao mesmo tempo que aliena, seduz. Inércia e a promessa falha que depois se volta contra nós mesmos.

Eu tenho medo dos dias iguais, dos gestos mecânicos, da falta de calor. Das relações que se desgastam, das pessoas que se perdem e dos abraços que se desencontram até se transformarem em vazio. Dos beijos negligenciados, das palavras deixadas para depois ou dispensadas por já terem sido ditas muitas vezes antes. Como se o hoje fosse só uma extensão do ontem, do anteontem, em um eterno “mesmo”. Tenho medo do constante que justamente por ser constante perde o brilho e passa a ser menos que comum. Me assustam os hábitos simples que vão sendo deixados para trás, paulatinamente, até que não haja mais volta. Hábitos que faziam muito bem, que traziam sorrisos, engolidos pela pluralidade dos dias sem cor, onde tudo segue um roteiro apressado. Tenho medo de o que é espontâneo escoar por entre meus dedos como minúsculos grãos de areia impossíveis de deter. Medo de que a magia se perca, se esconda, se junte com a alegria e fuja para longe.

Eu tenho medo de perder as pessoas para a rotina, de não conseguir mantê-las comigo através do tempo que passa. De que elas cansem, se recolham sob o peso da convivência. De perder a mim mesma nesse meio tempo, também. A beleza, a sede de novidades que me empurra para frente. As surpresas e a vontade de mudar. Eu tenho medo de, no futuro, ser sufocada por compromissos, datas e horários. De me ver encurralada a ponto de sequer parar para pensar. Eu tenho medo de deixar de sentir a beleza de uma flor, a paz de uma brisa leve, o conforto do cheiro da chuva ou o amor dos animais. De a certa altura me encontrar presa em um labirinto sem fim onde falta tempo e sobram afazeres. Sim, tenho medo de tudo isso. Mas, na verdade, o que mais me apavora é estar presa em algo que não posso mudar, medo de já ser tarde. Ou pior ainda, ser possível fazer algo e, mesmo assim, eu me recusar. Tenho medo de, depois de tudo, eu simplesmente me conformar.

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2 comentários sobre “O meu maior medo

  1. Também morro de medo do comodismo, da conformação.
    Certa vez quase fui pega, me deixando ouvir alguns vampiros d’alma, mas me recuperei a tempo.

    Para quem tem a mente cheia de ideias, que adora criar, que tem galáxias inteiras na cabeça, se conformar é como deixar existir.

    Ótimo texto. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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