Colcha de retalhos

Eu sou o livro que li devido a indicações entusiasmadas, o que li com outra pessoa, o gênero desbravado após muita insistência.  A história preferida de uma pessoa próxima, o autor orgulhosamente apresentado por ela e todas as conversas que se seguiram sobre personagens e pontos de vistas. Sou o filme que assistimos naquela tarde de férias, o da madrugada e aquele que me fez chorar. Os artigos que compartilhamos, até mesmo os pouco úteis. Mas também as notícias, os textos melosos. As vezes em que tivemos conversas longamente reflexivas e os comentários que me fizeram enxergar além. Eu sou o gênero musical desconhecido, até aquele alguém chegar para me viciar nele. Sou a banda preferida daquele outro alguém, que depois de certo tempo passou a ser a minha também. As músicas que tentei interpretar, falando sério ou não, com tantas pessoas diferentes. Sou a canção que aquela pessoa cantava para mim, a que eu cantei para ela  e a que cantávamos juntas. A que ela me ensinou a gostar, me ajudou a odiar e me mandou em um determinado momento. Sou as músicas que até hoje canto, por causa de alguém ou para alguém. As nostálgicas melodias que estavam tocando naquele dia marcante, de propósito ou não.

Eu sou o jeito de falar das pessoas importantes para mim. As alterações leves na forma de se expressar, as manias pequenas que logo se tornam compartilhadas. Quase um sotaque inconsciente que às vezes surge nas sutilezas da convivência. Nossa linguagem secreta e as piadas particulares. Os vícios léxicos, as gírias que nós mesmos inventamos, os apelidos que me deram. Sou os assuntos que interessam as pessoas próximas, suas paixões, seu entusiasmo e sua força. Sou a confiança dos que me contaram segredos, a organização dos que tentaram me fazer ser menos bagunçada, o carinho dos que incentivam. A constância dos que aguentam a minha própria inconstância. Sou o contato de todos os dias, as coisas que passam despercebidas. O que aprendo, mesmo quando a intenção do outro não é ensinar. Sou as mudanças boas, o amadurecimento que contou com ajuda. E mais, tão mais.

A verdade é que eu sou uma colcha de retalhos, retalhos de outras vidas. Uma mixórdia desorganizada de lembranças, trechos de conversas, experiências. Um quadro rupestre  de emoções loucas e saudade. Mas, acima de qualquer coisa, eu sou um mosaico composto por outras pessoas. Por tudo o que elas me deram, me tiraram ou me ajudaram a construir. Seja em um papo sobre leituras, seja cantando a música que eu nem conhecia mas se tornou especial assim mesmo. Seja quando passamos por algo difícil ou só trocamos amenidades diariamente. Eu sou eu mesma, sim. Mas também sou os outros. Porque sempre que eu leio um livro, ouço um cantor por indicação de alguém ou qualquer outra coisa parecida, um pedaço dessa pessoa fica em mim. Querendo ou não, eu percebendo ou não. E, o principal, por mais que a pessoa se vá, aquela ínfima parte sua que ela inconscientemente ofereceu, ainda me pertence. E continuará pertencendo, mesmo que ela nunca volte. Assim, de certa forma é como se ela jamais houvesse ido, afinal. Eu sou ausências, partidas e desencontros. O amor dos que estão ao meu lado e tudo o que eu mesma ofereço a cada dia.  Eu sou o “Para Sempre” de todos os que mudaram a minha vida, independente do que tenha acontecido ou deixado de acontecer depois. E agora, você que está lendo essas palavras, é, também, um pouco de mim, nem que seja apenas através desse texto.

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Um comentário sobre “Colcha de retalhos

  1. Oi
    Interessante seu post. Todos somos uma colcha de retalhos, mas poucos se percebem disso.
    A vida vai nos costurando , alguns percebem, outros fingem que não.
    Parabéns, escreves muito bem

    Curtir

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