Quanto tempo durou o seu Para Sempre?

Para sempre foram todas as manhãs em que fui acordada pelo gato dormindo em cima de mim. Todas as tardes brincando com as cadelas, os banhos do outro cachorro, o carinho e o rabo desse batendo nas minhas pernas. As noites com amigos, mesmo que eles morem longe, em diferentes estados. As loucuras com os mesmos amigos, com outros, com os que nem amigos eram, afinal. A caminhada e os segredos, a trilha. Os três dias, os seis, a semana e a oficina. Para sempre foram as duas horas da palestra inesquecível, as três da aula marcante, as cinco ao lado daquela pessoa que dispensa comentários. Os instantes que consagraram as melhores ou piores percepções. A verdade revelada e as certezas irrenunciáveis. O segundo em que o coração perdeu uma batida e a razão perdeu a batalha definitiva.

Para sempre foram os abraços deliciosamente apertados, os beijos de tirar o fôlego, os carinhos no cabelo, as mãos dadas, entrelaçadas nos momentos mais comuns. E para sempre foram os momentos comuns, também. Os momentos de paz, a tranquilidade de não desejar estar em nenhum outro lugar no mundo todo. As horas que pareceram minutos, todos os mínimos detalhes de dias compartilhados e noites agradavelmente longas em ótima companhia. As piadas ridiculamente sem graça e rir até a barriga doer, mesmo durante a aula. Principalmente durante a aula. Para sempre foi a vergonha dos grandes equívocos, a alegria das boas notícias e o sentimento inominável que cerca cada reencontro. O apoio, o incentivo, tudo o que fica quando as datas se apagam. Embora algumas sejam lembradas, também. São as refeições em família, as histórias antes de dormir e os passeios de bicicleta a toda velocidade.

Um filme, um livro, até mesmo uma música. E principalmente as sensações. Para sempre é aquele alguém. Os pequenos grandes detalhes, que retornam nas horas mais aleatórias. Uma pessoa, duas, três… E mais. É aquela voz dando bom dia, as brigas fingidas com as melhores amigas, os papos profundos da madrugada e as reflexões matinais. Para sempre são as amizades, embora algumas acabem muito cedo. São os planos, mesmo os irrealizáveis. São os sonhos, que permanecem onde realmente importa. São as partes que deixamos no caminho, as que desejamos esquecer mas é impossível, as que nos marcam como nós mesmos, a cada fase da vida que se vai. Para sempre somos nós e nós somos o sempre de alguém. É o que valeu a pena, o que se leva, no final. Um instante ou uma vida. Foram e são. São muitas outras coisas e serão muitas mais ainda. O meu Para sempre durou um segundo, cinco minutos, um dia e três anos. Duas semanas, um mês e meio, quinze dias. Meia hora e meio dia. Porque o verdadeiro sempre não é o que não tem fim, mas o que na memória e no coração nunca acaba. E então, quanto tempo durou o seu para sempre?

A Arte De Per (doar)

Muito se fala de perdão. De como é um sentimento nobre, necessário, a coisa certa a ser feita. E é tudo isso e além, ainda. É doce, alivia. Isso é inegável. Mas o que quase ninguém fala é o quanto perdoar custa. Como continua doendo depois, diminui, mas não apaga, nem mesmo um pouco. O que se sentiu, o quanto se sentiu. A intensidade, os dias escuros e frios. Ninguém fala como perdoar exige algo que você nem sabe que tem, nem sabe se consegue ter. De como é preciso força. E há um preço a ser pago. Um preço que pode ser alto demais.

Não é obliterar o que foi feito ou dito, às vezes não é nem superar. Perdoar é constante. São todos os dias. Nas pequenas e grandes coisas, por mais clichê que isso seja. Todos os instantes que você escolhe não julgar mais, não se ressentir tanto, não pensar. Afastar, enterrar pouco a pouco, embora saiba que nunca esquecerá. Perdoar são todas as vezes que você decide que passado é passado, que você não usa o que já foi em discussões atuais, que resiste a vontade de trazer a tona o que não importa mais. Perdoar é acreditar no melhor, mesmo já tendo visto o pior. E sabendo que ainda pode estar lá, a espreita. É aceitar as desculpas, mesmo que nunca se aceite as ações. É passar por cima, na certeza de que rancor é um peso desnecessário a se carregar em um mundo que já sobrecarrega tanto. Porque no final, apesar de tudo, vale a pena. Mil vezes, vale a pena. Seja pelo motivo que for.

O perdão é uma escolha. É se permitir, encarar de frente. Independente do que se faça depois, perdoar nos torna livres, da forma mais linda e pura. Traz uma daquelas sensações que as palavras jamais chegarão sequer perto de conseguir descrever. Se você irá continuar vendo a pessoa, se dará outra chance a ela, se irá trancá-la em uma gaveta para nunca mais abrir, nada disso importa. Perdoar não tem definição, não tem protocolo. É sentir, deixar tudo sair, evaporar com o tempo, seguindo a correnteza da vida. Sem amarras. Abre novas portas e fecha outras para sempre. Deixa leve, os dias mais simples, as complicações menos complicadas. É o princípio do esperado desfecho, ou o primeiro passo do novo começo. Perdoar é nada mais do que isso. Doar. Sem esperar nada em troca, sem julgar o mérito de ninguém. Doar paz. Ao outro e principalmente a si mesmo. Doar um pedaço do seu coração, a parte mais sincera e vulnerável. O pedaço mais precioso que alguém pode desejar ter. Doar, simplesmente, amor.

Eu lembro

Para ela, os dois se conheceram em uma quarta-feira chuvosa. Foi em uma sexta e com muito sol, ele reafirma, convicto. De tarde, não, a noite. Quanto ao lugar, eles quase concordam, quase. Eu que disse oi, ela vai logo dizendo, para deixar bem claro. Ele, sorrindo, argumenta que não foi culpa sua se ela não ouviu quando, ele, sim, cumprimentou por primeiro. E foi olá, nada de oi. Ele ainda diz que ela era muito inacessível, enquanto ela o acusa de ser pouco perceptivo com os sinais. Era uma festa, que nada, foi no shopping. Trocaram olhares, mês de julho, reitera ela. Setembro, ele fala, pela milésima vez. Amigos em comum, um ponto de concordância.

Aniversário de namoro. Dia 13, não, 14. Mas era madrugada já. Não importa. se eu não dormi ainda não era outro dia. Comemoram nas duas datas, como uma trégua merecida. Ela diz que o primeiro presente que deu a ele foi um livro, ele diz que foi perfume. Ela ganhou como primeiro presente um estojo de maquiagem, ou um par de brincos, dependendo para qual dos dois a pergunta é dirigida. Foi uma briga. Não, não foi. E aquela viagem para a praia foi a primeira. Claro que não, teve aquela trilha ecológica, é longe também. Ele diz que ela é muito ciumenta. Ela se defende, fazendo comparações. Ele não cede, ela continua, aponta o dedo mas acaba rindo. E ele também, finalmente. Ele diz que a mãe dela é muito brava, ela reclama que o pai dele a odeia. Não há consenso sobre as datas, mais uma vez.

Divergem sobre as pequenas promessas não cumpridas, os jogos bobos, o que vão comer no jantar e o que comeram no primeiro jantar um na casa do outro, é claro. “Eu lembro”, eles dizem, em todas as vezes. Depois discutem, fingem ficar de mal, se beijam e fazem as pases. Nnguém ganha. Ninguém nunca ganhará. E é por saber que nenhum desses detalhes importa de verdade é que eles continuam discordando. Afinal, no que mais importa eles não apenas concordam, como sabem, têm certeza, a máxima certeza: É amor. E vai continuar sendo. Na quarta, na sexta, em julho e em setembro, dia 13, 14 ou 15. E disso, sim, eles lembram. E, independente de qualquer coisa, nunca vão esquecer.

Brincando com Legião Urbana #2 – Perfeição

Vamos celebrar nossa tristeza, vamos celebrar nossa maldade. A ferrugem nos sorrisos, agricultores famintos, desaparecendo debaixo dos arquivos, o ódio e a inveja, o horror por entre abismos e florestas. Vamos celebrar o preconceito, nosso pequeno universo. Esses dias tão estranhos… Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel. e ESSA JUSTIÇA DESAFINADA, tão humana e tão errada. Ficamos suspensos, perdidos no espaço. Nos deram espelhos, e vimos um mundo doente… Quando tudo é traição, quando querem transformar estupidez em recompensa. Quando o que temos é um catálogo de erros… Nada é fácil, nada é certo. O senhor da guerra não gosta de crianças… É uma dor que dói no peito.

Hoje não dá, hoje não dá… Toda hipocrisia e toda afetação, todo roubo, toda a indiferença. O descaso o que condena, o que se foi e o que não existe mais. Vamos celebrar a fome. E a ignorância que é vizinha da maldade. Que belíssimas cenas de destruição… Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar. Descompasso, desperdício… E esses dias tão desleais. Pra que servem os anjos? O que fizemos de nossas próprias vidas? Só nos sobrou do amor, a falta que ficou… E o resto é imperfeito.

Não há mentiras nem verdades aqui, só há as coisas como são. Todo mundo sabe, ninguém quer mais saber. Tanto fez e tanto faz… Roubar pra vencer. Mas a vida deixa marcas, do cansaço e da solidão… E queremos fugir mas ficamos sempre sem saber. Não temos com quem chorar, nem pra onde ir. O que temos é o que nos resta e estamos querendo demais, mas tudo bem, tudo bem…
Tudo está perdido, mas existem possibilidades. A umanidade é desumana, mas ainda temos chance. Queremos nossa vez, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. não é pedir de mais… De tanto brincar com fogo, que venha o fogo então. Sempre em frente… E tudo deve passar. Temos paz, temos tempo. Temos todo o tempo do mundo. Somos nosso próprio tempo e o tempo é tudo o que somos.

De hoje em diante todo dia vai ser o dia mais importantte. Não se esqueça, temos sorte. E agora é aqui. Liberdade e respeito, chega de opressão. Chega de maldade e ilusão. Existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem, Que cáia o inimigo então. E nosso futuro recomeça… Um por todos e todos por um. E nossa história não estará assim pelo avesso, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar, vamos viver… Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás, apenas começamos. O mundo começa agora… E venha que o que vem é perfeição.

A Colecionadora

Algumas pessoas colecionam bolsas, sapatos, até mesmo xícaras. Ela não. Isso é tão raso, tão superficial que não cabe em seu mundo. Ela também não preserva sua coleção peculiar para admirar ou exibir, sequer por gostar muito dos objetos, embora este último se aproxime da verdade, de certa forma. Ela coleciona instantes. Para reviver, sentir de novo e de novo, como um vício sem fim. Abraços apertados, beijos doces, conversas importantes. Ela guarda os dias de sol, os toques leves, que fizeram a diferença justamente pela sutileza e ternura. Guarda começos, carinhos, guarda saudade. Ela coleciona pequenos “sempres” e valiosas eternidades.

A coleção permanece com ela em todos os momentos, protegida, bem cuidada. Sua vitrine está toda desenhada com palavras, aquelas que nunca serão esquecidas. Letras traçadas com tinta permanente, partes soltas, capítulos esquecidos de sua própria história e trechos significativos das de outros. Grafitada com rabiscos aleatórios, dos dias em que nada fazia sentido, como uma pintura rupestre de sentimentos expostos. Está, também, enfeitada com pequenos presentes, souvenirs do ontem. Esses sim tangíveis, para que ela possa, às vezes, sentir nas pontas dos dedos toda a realidade e imensidão do abstrato que a cerca, do intocável, apenas alcançado quase em outra dimensão. Saber que não foi um sonho, que foi, e é, ainda, real. Pequenos pedaços de passado, que a ajudam a ficar ancorada no agora.
Também há perfumes, tantos e tantos perfumes. Perfume de nostalgia, de outras épocas, de pessoas, do vento. Cheiro de grama, terra molhada e amor. Cheiro dos cabelos, do pescoço e das roupas de um outro alguém. Cheiro de livros e das emoções vividas com eles. Há texturas. Textura da pele, de papel, de madeira e couro. Dos pêlos dos diversos amigos de quatro patas. Arrepios… E toques, infinitos toques. Das mãos, das pernas, dos rostos. Toques das almas, como com os grandes amigos. Ela também coleciona sons. Batidas de um coração, suspiros, o trinar dos pássaros. Músicas, diretamente relacionadas com acontecimentos. Vozes, muitas vozes. De outros tempos, de outros mundos. E o gosto do doce que ninguém mais viu, do bolo da festa de aniversário, de outros lábios que não os seus. Gosto de chuva e do que aconteceu enquanto chovia lá fora. Gosto de lágrimas, de mudança, de expectativas. Gosto de café bem forte na tentativa de sanar a agitação interna em meio às longas madrugadas insones.
Ela coleciona memórias, mas não apenas memórias. Coleciona vida. Partes do que foi importante, de quem foi, de quem ainda é importante. Uma paleta de cores e sensações. Um refúgio para as horas difíceis e um cobertor para as noites gélidas. É lá, em sua coleção particular, que ela se esconde e se encontra, sempre que necessário. Ou apenas quando sente vontade, mesmo. É lá que ela é livre, um pé no presente, outro no passado. O coração longe, a mente no futuro. Ela se perde nos retalhos de si mesma, sem saber que, de todas as coisas, é isso que a salva.

As palavras permanecem

A explicação esperada, o pedido de desculpas, a longa discussão tarde da noite. O conselho, que não foi mais do que mera preocupação. A conversa casual antes que tudo acontecesse, os assuntos aleatórios do depois. O perdão concedido, as acusações atiradas aos gritos e as declarações sussurradas, finalmente. As perguntas, as respostas e os porquês desnecessários mas doces. O trágico adeus, o “olá” das possibilidades. O “eu te amo” disfarçado, o “eu me preocupo com você”, nas entrelinhas. Começos, recomeços. E no fim da noite, no fim de tudo, até mesmo no fim da vida, ficam os abraços. Os beijos, os gestos. Ficam as sensações, as mágoas e o apoio recebido, ou não. Ficam os cheiros, os toques. Mas sobretudo, ficam as palavras. Imortais, marcas indeléveis, firmes como rochas, em meio a um vendaval insano de mudanças e reviravoltas. Sobrevivendo ao tempo e a todo o resto.

As palavras de esperança, que nem pareciam capazes de nada, mas acabaram por ser mais do que qualquer um poderia ter imaginado. As de incentivo daquela pessoa que nem imagina o quanto fez a diferença. As críticas duras, mas necessárias. Os simples elogios que aquecem nas noites geladas. As confissões que levam consigo um pedaço irrecuperável de algumas relações. As palavras simples, que por serem daquele alguém, se tornam tudo menos simples. As promessas, as garantias. As que feriram e continuarão ferindo, indefinidamente. As declarações que ecoam e ecoam, sem que nada possa ser feito para que isso pare. E nem sempre o desejo é que pare, afinal. As mentiras e a dor das palavras que foram a descoberta. Os trechos de conversas aleatórias, que se transformam em tesouros de normalidade quando as tais conversas já não são mais possíveis. As palavras de amor e de amizade, que fazem qualquer outra coisa valer a pena. As sinceras, que fazem brilhar até mesmo os dias cinzas. Os divisores de águas, para sempre partes da história. Recordações, pedaços de vida em forma de letras, tons e vozes.

As palavras são mais. Muito mais. São imprescindíveis, insubstituíveis. Nada equivale a simplesmente falar, ou escrever, que seja. Colocar para fora. Tornar concreto, real. E nenhuma outra coisa satisfaz mais do que ouvir, preto no branco, o que os gestos já disseram antes. Uma confirmação, quase uma admissão. No entanto, as palavras nunca são o suficiente. E ao mesmo tempo, são tudo, e além. São menos do que queremos admitir, mais do que queremos que os outros percebam. As palavras libertam. Destroem. Resgatam. E depois que tudo se vai, as palavras são tudo o que resta. O inferno e a cura. E na maioria das vezes, não há distinção.

Se você quiser

sol

Se você quiser eu faço cara de séria, me acalmo, viro um doce. Discuto a relação, faço marra, brigo, mas depois sussurro todos os motivos pelos quais ainda lhe amo. Se você quiser eu deixo os cabelos sempre soltos, passo o creme que você adora e uso saltos não tão altos para não ficar maior que você. Mando mensagem de bom dia e compro um batom porque você gostou do gosto. Se você quiser eu deixo o livro um pouco de lado para assistirmos um filme, lhe acompanho em uma festa mesmo odiando agitação. Acordo mais cedo para assistirmos o nascer do sol na varanda, depois até penso em aprender a cozinhar. Faço planos para nós, mesmo odiando expectativa.

Se você quiser eu perco a vergonha e beijo em público, me declaro em público, grito que lhe amo na rua. Porque paixão é desatino. Eu esqueço do medo, me jogo na piscina, crente que você me salvará. Me atiro nos seus braços, em nenhum momento duvidando que você veio para ficar. Porque amor também é entrega. Se você quiser eu faço carinho, canto até você dormir e tento ligar menos para quando você esquece as datas importantes. Divido o chocolate e aceito que você roube uma bola do meu sorvete. Se você quiser eu conto piadas sem graça para aliviar sua tensão, invento os tópicos mais bobos para você se distrair e questiono ao seu lado a razão do universo.

Se você quiser eu ouço o que aconteceu no trabalho, ajudo a xingar qualquer pessoa que tenha lhe irritado, faço cena de ciúmes para que você veja o quanto me importo. E mesmo assim você nunca saberá a extensão disso. Amaldiçoo o mundo injusto, beijo suas lágrimas e respeito seu mau humor. Se você quiser eu demoro menos para me arrumar, ou mais. Eu aperto sua mão debaixo da mesa se o clima estiver tenso. E não solto. Se você quiser eu insisto. Vou, volto. Fico. E eu, só quero que você queira. O resto? Descobrimos depois. Juntos.